O CORPO EM GAIA

Esse é tempo de partido. Tempo de homens partidos.

Os versos de Drummond escritos na década de 1940, no poema “Nosso Tempo”, parecem anunciar um tempo tão nosso. Vivemos a hora da desagregação numa era que se quis global, num país que se forjou aparentemente cordial. A sensação é de que nunca foi tão difícil ouvir, ser ouvido. Existir, aceitar que o outro exista. Coexistir. Conviver. Viver com o próximo, com a Terra. Tempo de absoluta depuração.

Em sua 14ª edição, o Festival de Dança de Londrina traz como tema “o corpo em Gaia”. A reconquista de uma ética de convivência numa Terra em transe moveram os pensamentos da nossa arte e as escolhas curatoriais. Não são raros os acontecimentos recentes que nos levam a refletir sobre o impacto das ações humanas no meio ambiente e na esfera das relações.

O mês de julho de 2016 foi anunciado pelos cientistas como o mais quente já registrado desde quando este tipo de medição começou a ser feita, há 137 anos. A Conferência do Clima (COP 21), realizada em Paris no fim do ano passado trouxe o alerta para um provável colapso do planeta se medidas imediatas não forem tomadas para a redução do aquecimento global. O evento deu origem ao Acordo de Paris, em que os países se comprometem a reduzir drasticamente a emissão de gases poluentes, causadores do efeito estufa.

O Brasil assinou em setembro o compromisso oficial. Mas o que fazer, na prática, para que a catástrofe anunciada não pareça uma ficção distante e para que os nossos hábitos cotidianos sejam ações conjugadas, efetivas, para reverter o problema? Como acreditar no compromisso diplomático das autoridades brasileiras, que têm ignorado os lemas de preservação do meio ambiente em suas políticas desenvolvimentistas?

Flashes recentes da irresponsabilidade se sucedem: A lama tóxica em Mariana solapando famílias e cidades, infiltrando lençóis freáticos, chegando ao mar. A instalação de usinas como a de Belo Monte no rio Xingu (PA), inundando áreas de preservação, expulsando comunidades ribeirinhas. A indisposição para a demarcação das terras indígenas. O avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia para exploração ilegal ou para expansão das áreas de cultivo.  No fundo, bem no fundo do progresso vazio das usinas, das mineradoras, das madeireiras, dos agronegócios, quase sempre a corrupção. E vamos nos tornando, quase sem dar por isso, filhos matricidas de Gaia.

Um pensamento: A palavra “corrupção” vem do latim corrupta, junção dos termos cor (coração) e rupta (rompimento). Uma espécie de coração partido. De homens partidos. “Ética” nasce do termo grego ethos, hábito para se viver respeitosamente com os semelhantes e com sua morada, a natureza.

 

O Festival de Dança 2016 propõe uma mirada ampla sobre o conceito de “movimento”. Dançamos no interior de macroestruturas que, por si só, já realizam um balé perfeito. Da dinâmica interestelar aos ciclos da natureza, tudo segue uma coreografia conjunta, um bailado sem protagonismos. O homem é um dos atores de um espetáculo imensurável no tempo e no espaço. Um antigo ensinamento indígena elucida o óbvio oculto: Não foi o homem que teceu a trama da vida, ele é só um fio. Tudo o que fizer à trama fará a si mesmo.

A arte do Festival traz imagens emblemáticas e metafóricas deste ciclo. Uma semente-útero que se desenvolve em um broto-indivíduo. Um nascimento. Formações coletivas que se abraçam em unidade para dar origem à vida. O corpo é, aqui, morada do ser e Gaia é morada do corpo. Antes de cada espetáculo, na escuridão reflexiva do teatro, o Festival projetará vídeos sobre a ética da coexistência. Lapsos que nos lembrem de que, além desta dança, existe outra.

Muitos dos espetáculos vão direto ao coração da questão. “Dezuó – Breviário das Águas” traz ao evento um menino de uma comunidade ribeirinha exilado das margens do rio pela construção de uma usina hidrelétrica. O degredo territorial ou existencial perpassa montagens como “Sakinan Göze Çöp Batar” e “Angústia”. São obras que, em alguma medida, sugerem a melancolia da vida em sociedade, a nossa dificuldade de comunicação e de coexistência.

“Porque Somos Mutantes” inspira-se nas esculturas do artista plástico Jason Decaires Taylor, que mergulha suas obras no mar para que a natureza se encarregue de transformá-las. Um mote para pensar as ações que independem de nossas vontades, a transitoriedade da existência. Os ciclos da vida, simbolizados pela sabedoria da terceira idade, também atravessam “Yolanda Calaboca” e “Compêndio para Velhice”, que compõem uma noite especial e emocionante na programação.

Além da mostra oficial, que acontece de 1º a 9 de outubro, o Festival propõe este ano uma extensão no fim do mês, de 27 a 31 de outubro. Espetáculos de projeção internacional pontuam a abertura e o encerramento. A Cia Urbana de Danças, grupo carioca incensado pela crítica da Europa e dos Estados Unidos, dá largada à programação sob o signo da resistência. Jovens da periferia superam as dificuldades de um país negligente com a cultura e fazem brilhar a estrela brasileira no exterior. Já o multiartista francês Christian Rizzo, pela primeira vez em Londrina, fecha a extensão graças a uma parceria do evento com o projeto FranceDanse, do Institut Français e da Embaixada da França no Brasil.

Ao longo dos 14 dias reflexivos em torno da arte do movimento, o público poderá conferir ainda o virtuosismo técnico da São Paulo Companhia de Dança e surpreender-se com a EF Jazz Company, revelação na linguagem. O Festival também é tempo e espaço de festejar os talentos da terra: o anfitrião Ballet de Londrina, com a remontagem de “Decalque”, sua obra mais aclamada por especialistas; a Escola Municipal de Dança, que se destaca no cenário nacional pela excelência na formação; artistas independentes, que exibem suas performances na democrática mostra “Dança Londrina”, e o talento ascendente dos clowns londrinenses, representado pela Cia Os Palhaços de Rua.

Em mais um ano, o Festival de Dança reforça a sua vocação pedagógica com uma grade de oficinas ministradas por profissionais de renome e a preços muito acessíveis, ideário que se estende à programação artística, com bilheteria simbólica. São motivos que atraem, a cada outubro, espectadores de Londrina e de outras cidades ávidos por arte e conhecimento.  O panorama dos cursos e espetáculos desta 14ª edição reitera a marca pela qual o Festival ganha destaque no sul do país: um evento que atravessa as várias modalidades da dança e que dá especial atenção para a confluência de linguagens a partir da arte do movimento, sobretudo o teatro.

Sejam bem-vindos à celebração da dança em/de Gaia.